Hoje, o centro do Rio de Janeiro vira palco de um encontro mágico em homenagem ao modernista Carlos Drummond de Andrade. Trata-se do Saruê, evento criado por Mônica Montone e Claufe Rodrigues que reunirá poesia, música, projeção de imagens, performances e muita gente bacana nos jardins da Biblioteca Nacional, de graça, a partir das 18h. Quem vai marcar presença por lá são os cantores Letuce e Línox e a poetisa Maria Rezende, dona do “Maria da Poesia”, um dos blogs de poesia com mais destaque da web por revelar uma linguagem essencialmente sincera e os encantos da palavra por trás de uma voz feminina, sem cair no clichê “mulherzinha de ser”. Para antecipar as benesses de hoje à noite, batemos um papo incrível com a Maria sobre literatura, a cena cultural do Rio, Drummond e, é claro, a poesia e todas as suas maravilhosas forma de expressá-la. Para quem gosta de ler, é imperdível. Simbora!

Maria, escrever é um ato de coragem. De se jogar no mundo sem medo. Quando todo esse processo começou na sua vida e quando você se deu conta de que, através disso, se podia viver?
Eu cresci lendo. Livrinhos pra criança, depois romances juvenis e, aos 14 anos, a poesia entrou na minha vida para nunca mais sair. A poesia ampliou essa paixão trazendo a descoberta da palavra como encantamento, mais do que apenas forma de comunicação. Aos 18 anos, eu fui parar na Escola Lucinda de Poesia Viva para aprender a dizer poemas com a Elisa, e de tanto dar voz aos poetas que eu amo é que nasceu a minha própria escrita.
Você tem dois livros publicados, “Substantivo Feminino” e “Bendita Palavra”. Como foi o desenvolvimento criativo das obras?
A minha escrita nasceu da palavra falada, e parece que tinha ficado cozinhando lá dentro e quando explodiu já veio meio pronta, sabe? Então meus poemas são muito orais, e eu logo fui dizendo cada um deles em saraus, eventos. Quando as pessoas me perguntavam por um livro eu achava que estava todo mundo doido, era tudo muito recente, achava que não estava pronta, mas um dia me dei conta de que a gente nunca está pronto mesmo pra nada, e acabei publicando o “Substantivo Feminino”, em 2003. Foi uma edição independente, eu mesma diagramei, fui à gráfica levar o disquete (tempo de disquete, ainda!), tudo super pessoal. E como minha escrita nasceu da oralidade eu inventei de ter um CD acompanhando o livro – na verdade era mais uma espécie de garantia, tipo: escritos eles podem não funcionar, mas na minha voz esses poemas são ótimos! Essa edição esgotou em uns quatro anos e acaba de sair do forno uma edição novinha em folha, pela editora Ibris Libris, que eu vou lançar oficialmente ainda esse ano. O segundo livro, “Bendita Palavra”, levou um tempão pra sair, dessa vez pela editora 7Letras, e foi lançado em 2008, também em forma de livro e de disco.
Você fez parte da escola da Elisa Lucinda, que é um nome representativo na nossa poesia contemporânea. Lá, existe a questão endossada da “poesia falada”, que você já contou um pouquinho na resposta anterior. Como mais sobre essa experiência e a sua relação com a fala mesmo, de a poesia ser dita para quem estiver disposto a ouvi-la?
Eu sou uma fã da poesia falada. Acho rico, acho lindo, acho generoso. A poesia dita muitas vezes quebra a ideia de que poesia é difícil, que é parte preconceito parte experiência mesmo, porque muitas vezes a única poesia que a pessoa conhece é a que ela estudou na escola, poetas clássicos, com vocabulário difícil. Mas poesia também é conversa, é cotidiana, é simples, e a oralidade aproxima, cria intimidade. É claro que toda leitura é só uma leitura, e que dar voz a um poema é dar o seu entendimento. Isso abre portas, mas também direciona, e pra muita gente acaba tirando a chance de criar seu próprio entendimento. Por isso eu sou a favor da poesia escrita e da falada, livro e disco, silêncio do quarto e palco iluminado, tudo.

Quais são as suas referências na literatura?
Ah, tanta gente… Eu sou uma leitora gulosa, e meus favoritos são os brasileiros da Semana de 22 pra cá: Drummond, Bandeira, Manoel de Barros, Hilda Hilst, Adélia Prado, Ferreira Gullar, Elisa Lucinda, Viviane Mosé, e também os meus contemporâneos, poetas da minha geração, como o Everton Behenck, o Leonardo Marona, o Vitor Paiva.
Hoje acontece o Saruê, em homenagem ao mestre Drummond. Como está a sua expectativa para o evento, a sua relação com o poeta e como enxerga a importância de ações como essa para a cena cultural do Rio?
Drummond foi meu primeiro poeta falado. Quando eu cheguei à escola da Elisa, o poema que escolhi para aprender a dizer versos foi “O caso do vestido”, um poema lindo e enorme dele. Foi um baita desafio porque além do tamanho é um poema de dor, a história de uma mulher abandonada pelo marido, e eu ali menina metida com aquele poemão na mão. Foi difícil e delicioso, foi meu batizado no palco, minha estreia, e por isso inesquecível. Nessa sexta, vou dizer esse poema em público depois de um tempão, estou superanimada e acho que vai ser emocionante… Esse evento é novinho em folha, a Mônica e o Claufe são superagitadores poéticos, dão casa para apoesia e para as outras artes também, e ah, os jardins da Biblioteca Nacional não podiam ser cenário melhor, né?
E para aqueles que escrevem, mas ainda temem a exibição: existe conselho?
Escrever é uma coisa, dizer poemas é outra, mas eu acredito na força de compartilhar a criação. Meus poemas ganham outra vida quando ganham o mundo, surgem outras leituras. A possibilidade de tocar quem te lê ou ouve é muito linda, e vale o esforço de botar a cara à tapa. Eu adoro…
Para finalizar, deixa uma frase especial para a gente?
“Be yourself. Everyone else is already taken.” (Oscar Wilde)